A ILUSÃO DO USO DA IA COMO SOLUÇÃO “MÁGIGA”!

No cenário corporativo contemporâneo, tornou-se comum testemunhar a exaltação, quase mística, da Inteligência Artificial. 

Em palestras de negócios, publicidades e publicações entusiasmadas nas redes sociais e corporativas, a tecnologia é frequentemente apresentada como uma panaceia moderna, capaz de solucionar de forma imediata todas as ineficiências de uma organização. 

Prometem-se relatórios complexos em tempo real, assistentes virtuais de comunicação impecável e um incremento exponencial de produtividade. Assiste-se, fundamentalmente, a uma romantização da ferramenta que negligencia as leis mais elementares da gestão prática.

Que a Inteligência Artificial otimiza processos, é um fato inquestionável. As vantagens do seu uso são claras: na automação de tarefas repetitivas, ela realiza a triagem automática de e-mails, o atendimento ao cliente 24 horas por dia, o processamento rápido de dados de notas fiscais e contratos. Na tomada de decisão inteligente, traz análise preditiva, relatórios instantâneos em gráficos claros e gestão de riscos contra fraudes. No aumento de produtividade, gera rascunhos de conteúdos, auxilia na programação de softwares e cria resumos executivos de reuniões longas. Observar um algoritmo sintetizar tudo isso em fraçãode segundos é um atestado do engenho humanorealmente magnifico. 

Todavia, o mercado de tecnologia passou a comercializar essas ferramentas sob o manto de uma ilusão milagrosa, como se a engrenagem operasse no vácuo, desprovida de regras ou infraestrutura. Ocorre que há uma premissa incômoda no âmago da inovação tecnológica: automatizar um processo preexistente que seja confuso ou desorganizado serve apenas para replicar erros com maior velocidade e em escala ampliada. 

Assim, se os fluxos de trabalho de uma empresa estão em algum grau caóticos, a introdução da Inteligência Artificial não promoverá a ordem; pelo contrário, potencializará o caos. A tecnologia perde sua eficiência quando a estrutura que a sustenta é frágil, cultivar este entendimento fará toda a diferença no custo do investimentos. 

Vivemos a mesma situação em relação ao uso do ERP (Enterprise Resource Planning). O ERP, como ferramenta de integração dos diversos ciclos operacionais — passando pelos registros financeiros e contábeis —, era comprado como “a solução de todos os problemas”. Esta ilusão levou muitos empresários a gastarem duas ou três vezes o orçamento devido. O motivo foi exatamente o mesmo: romantizar a solução como se ela fosse capaz de resolver todo os problemas das empresas, como se fosse possível, sem uma base sólida, colher os benefícios prometidos pela ferramenta. 

Para o sucesso do uso de novas tecnologias, seja um ERP ou a IA, existem pré-requisitos essenciais, que muitas vezes são sublimados nos processos entusiastas de vendas. Antes que os algoritmos entrem em cena, o dever de organizar a casa é imperativo. Exige-se dispor de processos mapeados de ponta a ponta com seus gargalos definidos, dados limpos e padronizados sem duplicidade, regras claras de governança e segurança da informação, objetivos exatos sobre o problema que a IA deve resolver e uma cultura digital com a equipedevidamente treinada. Não há mágica no progresso técnico; há, sim, dados estruturados e métodos consolidados, em todas as etapas dos processofísicos, de onde nascem os dados.

Para que as organizações não sucumbam ao apelo entusiasta do marketing e suas promessas, faz-se necessário recuar um passo em direção à estratégia. Antes de adotar a IA, inteligência do futuro, cumpre organizar os processos do presente. As empresas precisam fazer o mapeamento de suas atividades, a organização dos fluxos de trabalho, a documentação por meio de ferramentas de apoio e de validação e avaliação para saber se os dados estão prontos para receber a IA. Afinal, mesmo a tecnologia mais sofisticada do mundo demanda uma base sólida para que possa, de fato, prosperar.

Assim, ter consciência desta realidade, buscar poruma visão clara sobre as prioridades e o ritmo de implantação da IA, é sem dúvida o caminho do sucesso, tanto quanto aconteceu com os ERPs, os quais, após o insucesso das implantações, levaram os empresários a compreenderam que o ERP por si, não organizava o processo; era preciso organizá-los, estuda-los e defini-los, para depois implantar os módulos do ERP.

O desafio de organizar convive no dia a dia das empresas de todos os portes, em maior o menor grau. É sempre uma tarefa menos romântico, menos inebriante, mas ainda sim absolutamente necessáriae prioritária.

 

GALLUS CONSUTORIA EM GESTÃO E PROCESSOS EMPRESARIAIS

26/06/2026